Mycena cf. abramsii

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Mycena cf. abramsii

Mensagem  Lebre em Seg 07 Maio 2012, 22:46



Os dois exemplares considerados neste tópico cresciam juntos tendo como substrato um pequeno pedaço de madeira, no interior de um eucaliptal na zona Oeste do país.
Como se verá adiante tudo parece apontar para a espécie Mycena abramsii. A colocação do cf. no nome é devido ao seguinte:
Já não é a primeira vez que alguns detalhes das observações microscópicas que faço de Mycena não acertam lá muito bem com as descrições dadas em Mycena page para a espécie mais provável, sendo esses detalhes também omissos ou contraditórios nas outras espécies próximas. Então, das duas uma:
- Temos algumas espécies não descritas naquele site,
ou
- Passa-se qualquer "coisa" ao nível da interpretação dos resultados obtidos.
Sendo a primeira altamente improvável, por se tratar de um site de uma "grande autoridade no assunto", será necessariamente ao nível da segunda que temos de procurar as razões.
Isto aconteceu no tópico Mycena ... do Natal, onde ficaram por explicar os enormes pleurocistídios que o exemplar apresentava. Também é patente no tópico Mycena ... de gola alta que as dimensões das hifas da pileopelis apresentadas nas imagens não acertam com as dadas em Mycena page para as espécies consideradas. Isto só para citar duas das divergências de que me recordo.

Esta observação tem também um desses problemas a que me referirei mais adiante. Primeiro faço a descrição dos exemplares observados e exemplifico a aplicação da chave em Mycena page para este caso concreto.

Breve descrição:

Chapéu: hemisférico a campanulado, ostentando o exemplar mais maduro um mamelão obtuso; Cutícula estriada por transparência em mais de metade do chapéu, de cor cinzento acastanhado escuro, sendo ligeiramente mais clara no mais jovem, margem mais clara e ligeiramente ascendente no mais maduro;

Lâminas: altas de cor clara, branco a cinzento claro, inserção adnata e espaçamento algo afastado, cerca de 20 lâminas a atingir o pé, com lamélulas grandes; intervenadas;

Pé: cilíndrico ainda que alargando na zona de inserção no substrato, liso, com excepção da base onde é fibriloso, concolor com o chapéu mas de tons mais claros.

Esporos: oblongos, amilóides, exibindo gútulas internas, com as seguintes dimensões:
8.1 [9.2 ; 9.7] 10.8 x 4.7 [5.2 ; 5.4] 5.9 µm
Q = 1.4 [1.7 ; 1.9] 2.1 ; N = 24 ; C = 95%
Me = 9.4 x 5.3 µm ; Qe = 1.8;

Basídios: tetra espóricos (pelo menos a maioria);

Queilocistídios: muito abundantes formando uma banda estéril na aresta da lâmina, de forma fusiforme a clavada desenvolvendo grande parte deles no ápice uma longa excrecência em forma de lança (pescoço);

Pleurocistídios: Semelhantes aos queilocistídios, mas pouco abundantes;

Caulocistídios: Não muito abundantes, em forma de uma serra na terminação das hifas.

Trama lamelar dextrinóide; Pileopelis constituída em parte por hifas estreitas e diverticuladas e por outras muito infladas com terminação subglobosa; Estiptipelis constituída por hifas finas dispostas paralelamente.

Aplicação da chave disponível em Mycena page:

1 - Estipe não emergente de um disco basal;
[NOTA: Se tivesse feito o teste da exsudação, a chave conduzia à espécie em dois passos: 10 - Estipe exsudando quando cortado; 11 - Com exsudação aguada, hialina (ou quase nenhum): Mycena abramsii].
10 - Estipe não contendo qualquer fluído;
17 - Píleo desprovido de uma película separável;
24 - Pileus de cor diferente (de vermelho, rosa,laranja,amarelo forte ou de branco a creme);
43 - A crescer em madeira;
44 - ... de árvores de folha caduca;
58 - Espécies maiores (que as muito pequenas a crescer em casca de árvore), que crescem em tocos em decomposição;
73 - Com a maturação a carne não fica com manchas de vermelho/acastanhado;
76 - Queilocistídios de forma diferente (de densamente coberta com "verrugas");
77 - Queilocistídios mais ou menos fusiformes, lisos;
78 - Cor diferente (de amarelo no estipe e de avermelhado/acastanhado na aresta da lâmina);
81 - Queilocistídios menores (que 100 µm), apicalmente com um pescoço esguio típico:

---> Mycena abramsii

Discussão:

Esta chave conduz por duas vias à espécie desejada: a primeira sem qualquer dado da microscopia; a segunda com informação acerca dos queilocistídios. Após a descrição da espécie no site, na parte das observações/comentários é dado como carácter distintivo a exsudação ao corte, embora se refira da dificuldade da análise passadas poucas horas da recolha ou em espécimes que, sendo frescos, já entraram no processo de secagem. Dada a dificuldade em separá-la dos restantes membros da secção a que pertence (Fragilipedes), são dados como caracteres úteis para a identificação desta espécie:
1 - Queilocistídios que no ápice são providos de um pescoço delgado;
2 - A forma alongada dos esporos.

São ainda indicadas como espécies próximas: M. aetites, que tem esporos mais estreitos e queilocistídios de forma diferente, e M. leptocephala, em que geralmente as hifas da estiptipelis têm células terminais visivelmente infladas e tem também queilocistídios de forma diferente.

Em face do que atrás ficou exposto e das fotografias que anexo não me parece haver alternativa de classificação tão credível quanto Mycena abramsii. No entanto, fica a meu ver por explicar os resultados que obtive para a pileopelis, em particular a existência de hifas grossas e de células muito infladas. Neste particular, a descrição de Mycena abramsii no site Mycena page apenas diz o seguinte:
"Hyphae of the pileipellis 2-4 µm wide, covered with scattered to crowded, simple to branched, excrescences 2-10 x 1-2 µm, which tend to become gelatinized."
o que me parece algo distante do que observei.

Devo ainda notar que usando a chave disponível no meu guia fui conduzido ao mesmo resultado.

Fica então a pergunta: Qual será a razão desta discrepância?

Fotografias:
- Obtidas no local:







- Microscopia:
As preparações foram feitas usando o material fresco e usando apenas vermelho do congo como corante. No caso da aresta e da lâmina algumas das imagens foram obtidas depois da aplicação de uma gota adicionada ao lado da aresta da laméla e deixando impregnar com o tempo.


Aresta da lâmina exibindo os queilocistídios
(as imagens do lado direito foram obtidas depois da aplicação de uma gota de reagente de Melzer);


Observação da lâmina
(esporos, basídios e quelocistídios bem como uma imagem de conjunto);


Observação da pileopelis
(uma imagem da trama e várias das terminações das hifas infladas);


Observação da estiptipelis
(uma imagem exibindo hifas finas algo diverticuladas e várias imagens das terminações em serra das hifas);

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