Mycena cf. galopus

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Mycena cf. galopus

Mensagem  Lebre em Qua 23 Maio 2012, 01:15

Num curto espaço de tempo fui surpreendido duas vezes por espécies de Mycena que têm como característica a produção de latex no pé, sem que eu disso me tivesse dado conta. Este é (penso eu) o segundo caso e respeita a uma observação realizada no Parque de Monsanto, tendo o primeiro sido abordado no tópico “Mycena cf. abramsii”.
Nem na altura da observação in loco, nem posteriormente, me apercebi de que este exemplar tivesse essa característica, embora não tivesse feito, como devia, o teste de romper os tecidos do pé. O facto é que, na tentativa de identificá-lo, recorri uma vez mais à chave disponível em "Mycena site" e um dos passos desta chave tem em alternativa as espécies que ao corte exsudam latex e as que não o fazem. Como na altura em que apliquei a chave (muito depois da recolha) o exemplar não exsudava latex, optei pela segunda via. Por ironia, os outros passos da chave conduziram-me à espécie M. hiemalis, cujas características morfológicas são muitos semelhantes às de M. galopus, que eu penso ser a espécie à qual pertence o meu exemplar. Mas as características microscópicas são algo diversas. Baseando-me nas descrições destas espécie em "Mycena site", na minha opinião as principais diferenças entre elas são, e referindo-me também ao que observei:
- Basídios bi-espóricos em M. hiemalis vs. Basídios tetra-espóricos em M. galopus:
O que observei foram alguns basídios que poderiam ser bi-espóricos, mas alguns tinham certamente mais de dois esterigmas;
- Esporos de maiores dimensões em M. galopus que em M. hiemalis:
Não me pude basear neste critério por me ser muito difícil obter medidas precisas para esporos hialinos, como é o caso;
- Queilocistídios que formam um banda estéril, uniforme em M. hiemalis e apenas localmente em M. galopus, de forma fusiforme a utriforme em M. hiemalis e geralmente fusiforme em M. galopus, podendo haver também clavados a ovóides:
A distribuição dos queilocistídios não era uniforme na aresta, havendo locais de grande concentração. Eram, na generalidade, fusiformes e muito grandes (alguns com mais de 70 µm).
- As hifas da pileopelis em M. hiemalis são a esparsos diverticuladas e cobertas por excrecências cilíndricas, em geral simples, e mais ou menos encurvadas; Em M. galopus, são bifurcadas e cobertas por excrescências, mais ou menos abundantes e simples ou bifurcadas, e células terminais de lisas a diverticuladas, tendo tendência para geleificar:
Neste particular, parece-me ter observado alguma geleificação das hifas (ver a 2ª fotografia do quadro respectivo anexo) e quer as excrescências quer as células terminais são diverticuladas.
- As hifas do estipe em M. hiemalis são lisas e as células terminais (caulocistídios) são de formas variadas e, em geral, inflados; Em M. galopus, aquelas hifas são cobertas por excrescências de lisas a diverticuladas e apresentam fístulas:
Tendo tido o cuidado de retirar material mesmo do ápice não encontrei nada a que pudesse chamar de caulocistídio; As hifas do estipe estavam cobertas de uma rede de hifas mais finas com abundantes excrescências (o que é visível nas imagens que anexo); Além disso, encontrei algumas fístulas bem marcadas. Outra característica que não vem mencionada em qualquer das descrições é a existência de hifas lactíferas, muito pronunciadas (nas imagens anexas também são visíveis algumas).

Foi por algumas das divergências que atrás mencionei entre as características microscópicas do meu exemplar relativamente ao resultado a que a chave me tinha conduzido (na hipótese de o pé não exsudar látex) que voltei atrás até esse ponto e parti da hipótese contrária, que rapidamente conduziu a M. galopus.
Por tudo o que disse atrás parece-me estarmos em presença de um exemplar da espécie M. galopus, mas naturalmente gostaria de ouvi mais opiniões.
Depois deste exercício, fui naturalmente em busca de fotografias outros exemplares, para além dos que constam do site “Mycena page”. Encontrei algumas, em particular, as seguintes: “mushroomhobby”, “champignons.moselle”.

Fotografias:






Observação da aresta;


Observação da lâmina;


Observação da cutícula;


Observação do estipe.


Última edição por Lebre em Sab 26 Maio 2012, 11:12, editado 1 vez(es) (Razão : inclusão de legendas.)

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Re: Mycena cf. galopus

Mensagem  Terfez em Qui 31 Maio 2012, 15:28

A M. galopus é bioluminescente.

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Re: Mycena cf. galopus

Mensagem  Loco Gato em Qui 07 Jun 2012, 00:23

Só para elogiar a qualidade das preparações, e ainda fazer notar duas coisas: as estruturas "ramealis" que se observam no pé (antepenúltima foto) e talvez na cutícula (primeira e segunda foto - não estou seguro se aqui são); e a importância de fazer preparações dos esporos com Melzer, pois o carácter amilóide é distintivo dentro do género.

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Re: Mycena cf. galopus

Mensagem  Lebre em Sex 08 Jun 2012, 20:03

Caro Loco Gato,
Agradeço os elogios relativos às preparações.
Relativamente às estruturas "ramealis" que salienta, penso que são do mesmo tipo das que se observam na cutícula de algumas espécies de Marasmiellus, havendo até uma espécie com esse epíteto: M. ramealis.
No que respeita ao esporos, eu observei-os em Melzer mas nem mesmo assim consegui definição suficiente para obter dimensãoes credíveis. Aliás, no quadro relativo à lâmina as duas fotografias inferiores foram obtidas no meio com Melzer, o que permite visualizar melhos os basídios.
Saudações,
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Re: Mycena cf. galopus

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