Anéis de Fadas e Alimentação

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pergunta Anéis de Fadas e Alimentação

Mensagem  SaraiLopes em Dom 01 Fev 2009, 23:57

Olá, outra vez.

Passei o dia a pesquisar e a estudar o mundo dos fungos, e agora já vou em três posts de seguida. drunken

Ora bem, através dos links que me sugeriram, cheguei a um site de fungos australianos espectacular que explica de forma muito clara o crescimento dos micélios. Embora não esteja a dar novidade nenhuma a ninguém, permitam-me sumariar o que li:

O micélio evolve rapidamente em forma circular mas, esgotando o alimento no centro, canibaliza as hifas da zona. Portanto, vai crescendo não como um disco, mas como um anel, tornando-se cada vez mais largo. Na maioria dos casos, porém, o alimento não está disponível com a mesma força em todo o lado, pelo que o micélio raramente mantém uma verdadeira forma anelar (as tais que dão origem aos anéis de fada).

Refere ainda que a relva imediatamente à frente do micélio tende a usufruir dos nutrientes, pelo que fica mais viçosa, assim como a relva que fica na extremidade interior, devido à canibalização das hifas 'abandonadas'. No entanto, a zona sobre o corpo do micélio tem maior dificuldade em obter água, pelo que tende a aparecer mais seca. Justificam-se assim os anéis de fada 'relvados', mesmo que sem quaisquer cogumelos.

No entanto, e como não podia deixar de ser, surgiu-me uma questão:

Se a quantidade de alimento disponível no centro do micélio (antes deste perder a forma de disco para se tornar anelar) não diminuir, então o micélio não perderá a forma de disco, certo? É esta a ideia por detrás do cultivo de cogumelos? Alimentar o micélio em toda a sua área de modo a que ele continue a crescer para o exterior mas não tenha de abdicar das hifas mais antigas?

Muito embora eu tenha perfeita consciência que a realidade é muito complexa e que, portanto, a minha questão não se aplicará à esmagadora maioria das espécies, eu preciso de poder assumir algumas premissas sobre a ecologia dos fungos para poder criar cogumelos imaginários. Por exemplo, os fungos que atacam lagartas (e cujo micélio tem uma vida muito curta) desenvolvem-se enquanto têm alimento (ou seja, a lagarta não foi totalmente consumida) e, por fim, "frutificam" (sim, eu sei que é o termo errado, mas não consigo descobrir o post onde já li o termo correcto Embarassed ) e produzem mais esporos. Portanto a "frutificação" ocorre no final da vida do indivíduo. Mas isto não é o que se passa com a maioria dos cogumelos.

Outro exemplo, a Armillaria ostoyae que é um dos maiores seres vivos do mundo (não tenho a certeza se um outro fungo, na Inglaterra se não estou em erro, não terá entretanto ultrapassado a congénere americana) cobre uma área enormíssima. Naturalmente porque o alimento nessa área nunca se esgotou e, portanto, o micélio não teve que abdicar das suas hifas na área esgotada. Este raciocínio está correcto, ou há alguma coisa que me está a falhar?

O que eu não entendo neste caso da Armillaria ostoyae do Oregon, EUA, é que o fungo é suposto ser um parasita que enfraquece as árvores e, normalmente, até as mata. Como pode então ele sobreviver durante milénios numa mesma área sem matar todas as árvores à sua volta? Ou a área que ele ocupa neste momento foi colonizada recentemente e a sua 'pátria' há muito abandonada? Ou, por outro lado, será que o micélio se foi fragmentando, permanecendo apenas em ilhas onde o alimento se manteve estável, permitindo que novas árvores crescessem e se desenvolvessem em áreas entretanto abandonadas para depois as reocupar? Assim, como que num sistema de poisio fungal! (Não consegui as informações que queria sobre o indivíduo em questão... se calhar ainda mando um mail para o Parque Nacional onde ele está localizado)

Ou será que estou apenas a matar a cabeça desnecessariamente? scratch

De qualquer modo, e focando-nos nos saprófitos (decompositores), se a fonte de alimento nunca se esgotar (por exemplo, chão de floresta com grande quantidade de folhas mortas a qualquer momento) e não houver rivais a tentar roubar-lhe terreno (sejam eles fungos ou não), o micélio expandir-se-ia enquanto houvesse alimento sem nunca abandonar território colonizado desde o seu nascimento. Esta é uma premissa válida, correcto?

Mas, se for um parasita (e não sei muito bem que fazer desta premissa por causa da Armillaria ostoyae do Oregon) cuja fonte de alimento são árvores vivas, então à medida que as árvores vão tombando sob o seu ataque, o micélio terá de estar em constante migração, mesmo que consiga ir aumentando de tamanho durante essa migração.

Que me dizem?

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pergunta Re: Anéis de Fadas e Alimentação

Mensagem  Pedro Claro em Seg 02 Fev 2009, 12:14

SaraiLopes escreveu:
O micélio evolve rapidamente em forma circular mas, esgotando o alimento no centro, canibaliza as hifas da zona. Portanto, vai crescendo não como um disco, mas como um anel, tornando-se cada vez mais largo. Na maioria dos casos, porém, o alimento não está disponível com a mesma força em todo o lado, pelo que o micélio raramente mantém uma verdadeira forma anelar (as tais que dão origem aos anéis de fada).

Refere ainda que a relva imediatamente à frente do micélio tende a usufruir dos nutrientes, pelo que fica mais viçosa, assim como a relva que fica na extremidade interior, devido à canibalização das hifas 'abandonadas'. No entanto, a zona sobre o corpo do micélio tem maior dificuldade em obter água, pelo que tende a aparecer mais seca. Justificam-se assim os anéis de fada 'relvados', mesmo que sem quaisquer cogumelos.

Está tudo correcto, mas creio que os micélios não crescem sempre em forma circular e por isso nem todos os cogumelos aparecem formando círculos de bruxa ou anéis de fada. Mas é certo que todos as espécies têm um crescimento vegetativo (o micélio cresce) e pode, inclusivamente, haver reprodução não sexuada - o micélio parte, formando um novo indivíduo, como se de um clone se tratasse.


SaraiLopes escreveu:
Se a quantidade de alimento disponível no centro do micélio (antes deste perder a forma de disco para se tornar anelar) não diminuir, então o micélio não perderá a forma de disco, certo? É esta a ideia por detrás do cultivo de cogumelos? Alimentar o micélio em toda a sua área de modo a que ele continue a crescer para o exterior mas não tenha de abdicar das hifas mais antigas?

Não creio que as coisas se processem assim. Ou pelo menos sempre assim. Isto pode ser verdade para os micélios de espécies que formam anéis ou círculos, mas se assim fosse, não seria possível encontrarmos anos e anos consecutivos a mesma espécie EXACTAMENTE no mesmo local.

SaraiLopes escreveu:Muito embora eu tenha perfeita consciência que a realidade é muito complexa e que, portanto, a minha questão não se aplicará à esmagadora maioria das espécies, eu preciso de poder assumir algumas premissas sobre a ecologia dos fungos para poder criar cogumelos imaginários. Por exemplo, os fungos que atacam lagartas (e cujo micélio tem uma vida muito curta) desenvolvem-se enquanto têm alimento (ou seja, a lagarta não foi totalmente consumida) e, por fim, "frutificam" (sim, eu sei que é o termo errado, mas não consigo descobrir o post onde já li o termo correcto Embarassed ) e produzem mais esporos. Portanto a "frutificação" ocorre no final da vida do indivíduo. Mas isto não é o que se passa com a maioria dos cogumelos.

Esse é um ciclo de vida que teve que se adaptar a um outro ciclo de vida: o das lagartas. É necessário que o cogumelo ocorra e liberte esporos num determinado período de tempo (antes que as larvas das lagartas se enterrem no solo para concluírem o seu processo de metamorfose) para que estes tenham as condições ideais para formarem micélio e produzirem novos esporóforos: determinada temperatura, determinada humidade e substrato (o corpo da larva), entre outras coisas. A maioria das espécies, no entanto, não são assim.

Numa conversa recente com o professor Paulo de Oliveira, ele pôs-me ao corrente de uma hipótese de trabalho muito interessante. Disse ele que é possível que os cogumelos (os esporóforos) só ocorram quando a parte vegetativa (o micélio) entra em stresse. Se o micélio estiver sempre com as condições ideais para sobreviver e crescer, segundo esta hipótese, os esporóforos não surgem porque não há necessidade de reprodução sexuada. No entanto, se ocorrer uma ou mais situações de stresse (o micélio não poder crescer mais por barreiras naturais - estradas, cursos de água, solos inadequados à espécie - ou por competição de área e recursos com outras espécies; temperaturas baixas - este é considerado o factor mais importante para fazer despoletar as ocorrências de cogumelos; etc.), o micélio activa o plano B, ou seja, a reprodução sexuada (a ocorrência de esporóforos) e a libertação dos esporos que irão procurar novos locais com condições mais propícias para se desenvolverem.

SaraiLopes escreveu:Outro exemplo, a Armillaria ostoyae que é um dos maiores seres vivos do mundo (não tenho a certeza se um outro fungo, na Inglaterra se não estou em erro, não terá entretanto ultrapassado a congénere americana) cobre uma área enormíssima. Naturalmente porque o alimento nessa área nunca se esgotou e, portanto, o micélio não teve que abdicar das suas hifas na área esgotada. Este raciocínio está correcto, ou há alguma coisa que me está a falhar?

Pode ter abdicado, porque não? O anel continuou a expandir-se, canibalizando as hifas mais perto do centro, mas o anel em si aumentou de área - houve crescimento. Se a zona central continuasse viva, deveriam ocorrer esporóforos em toda a área e não apenas na periferia do anel (que então seria um disco e não um anel). Não sou nenhum especialista nesta área - e seria bom que quem é biólogo de formação desse aqui uma mãozinha -, mas este raciocínio parece-me mais lógico, não? Rolling Eyes

SaraiLopes escreveu:O que eu não entendo neste caso da Armillaria ostoyae do Oregon, EUA, é que o fungo é suposto ser um parasita que enfraquece as árvores e, normalmente, até as mata. Como pode então ele sobreviver durante milénios numa mesma área sem matar todas as árvores à sua volta? Ou a área que ele ocupa neste momento foi colonizada recentemente e a sua 'pátria' há muito abandonada? Ou, por outro lado, será que o micélio se foi fragmentando, permanecendo apenas em ilhas onde o alimento se manteve estável, permitindo que novas árvores crescessem e se desenvolvessem em áreas entretanto abandonadas para depois as reocupar? Assim, como que num sistema de poisio fungal! (Não consegui as informações que queria sobre o indivíduo em questão... se calhar ainda mando um mail para o Parque Nacional onde ele está localizado)

O género Armillaria não é apenas parasita; pode ser também sapróbio (ou seja, depende de matéria orgânica em decomposição para se desenvolver) - ou seja, pode alimentar-se durante muito tempo primeiro como parasita e depois como decompositor. Para além disso, uma Armillaria, por muito destrutiva que possa ser - e é -, está longe de ser uma praga. Não tenho conhecimento que este género devaste grandes áreas de floresta. Como em tudo, e fazendo fé no senhor Charles Darwin, serão atacados preferencialmente os indivíduos mais fracos (árvores 'feridas', com doenças, já atacadas por outros fungos...) e este 'ataque', primeiro 'parasitico' e depois 'sapróbico', demora vários anos (décadas) até consumir por completo uma árvore. Eu sei de várias árvores (eucaliptos de grande porte) que há perto de 10 anos vejo sempre com esporóforos de Armillaria mellea (uma espécie bastante destrutiva) e ainda continuam de pé, vivos. Creio que um micélio com milhares de anos se pode ter desenvolvido perfeitamente por uma grande área sem devastar tudo à sua passagem, seleccionando as árvores mais fracas para parasitar e decompor, e permitindo que no centro do anel (sem presença do micélio) a flora se regenerasse.

SaraiLopes escreveu:Ou será que estou apenas a matar a cabeça desnecessariamente? scratch

Talvez. Mas o gosto pelo rigor é importante e as questões que colocas são pertinentes.

SaraiLopes escreveu:De qualquer modo, e focando-nos nos saprófitos (decompositores), se a fonte de alimento nunca se esgotar (por exemplo, chão de floresta com grande quantidade de folhas mortas a qualquer momento) e não houver rivais a tentar roubar-lhe terreno (sejam eles fungos ou não), o micélio expandir-se-ia enquanto houvesse alimento sem nunca abandonar território colonizado desde o seu nascimento. Esta é uma premissa válida, correcto?

Creio que a tua questão se refere a 'disco' versus 'anel', certo? O que queres saber é se, com condições favoráveis ao crescimento, se mantém a estrutura de disco indefinida, correcto? Creio que o crescimento se faz sempre em anel; ou seja, os anéis interiores de hifas vão sendo canibalizados à medida que o micélio se vai expandindo. Aliás, qual o interesse em manter a parte central? Os recursos foram exauridos e o micélio não pode simplesmente ficar à espera que cresça outra árvore para parasitar e decompor. O maior interesse é expandir (para o exterior do anel ou, através dos esporos, para novos locais) e não estagnar. Mas, mais uma vez, eu não tenho conhecimentos suficientes para afirmar sem margem para dúvidas que as coisas se processam desta forma...

SaraiLopes escreveu:Mas, se for um parasita (e não sei muito bem que fazer desta premissa por causa da Armillaria ostoyae do Oregon) cuja fonte de alimento são árvores vivas, então à medida que as árvores vão tombando sob o seu ataque, o micélio terá de estar em constante migração, mesmo que consiga ir aumentando de tamanho durante essa migração.

Se o crescimento for apenas em anel, o micélio estará, de facto, em constante crescimento. Mas tem lógica; o fungo (micélio) cresce e só tem dois eixos por onde se expandir: ou de forma vertical (não pode ir para baixo por causa da escassez de recursos; não pode ir para cima porque não tem protecção à superfície) ou de forma horizontal (alargando ou crescendo numa determinada direcção). Parece-me é que te centraste demasiado no crescimento em anel (que creio não ser comum a todos os fungos), quando na realidade eles crescem como qualquer outro ser vivo: em direcção a novos locais com mais ou melhores recursos ou com menor competição de outros indivíduos da mesma ou de outras espécies.

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